O design a casa torna

Depois de algumas edições mais retraídas, o Salão do Móvel de Milão em 2013 recuperou a inventividade característica do design. O evento mostrou peças novas, apuro nas texturas e um desejo de brincar com a realidade e tornar a vida mais confortável.

O Salão Internacional do Móvel de Milão resolveu, neste ano, voltar os olhos para o futuro. Adotou o tema “Em Milão: O Mundo Que Habitaremos” para provocar nos designers e na indústria de móveis italiana uma reação contra a crise econômica que preocupa a Europa. A estratégia parece ter dado certo: boa parte dos 2.650 expositores do imenso pavilhão de Rho Fiera buscou nas origens do design de ponta uma forma de reagir.

Ao assumir a presidência da Cosmit, empresa que organiza o evento, Claudio Luti, número um da Kartell, ergueu a bandeira da criatividade. “O Salão é um centro de inovações por excelência. Por isso, mostramos não só produtos novos, mas uma prévia real do futuro”, afirma.

E o futuro da decoração, pelo que se viu, será democrático. Há espaço para os móveis clean e para a suntuosidade do luxo. A brincadeira com a geometria e o máximo conforto são outras marcas importantes. A casa retratada em muitos estandes é aconchegante e segura – perfeita para os tempos difíceis.

O arquiteto Lucio Albuquerque, que visita a feira há 20 anos, explica que a indústria do mobiliário acompanhou neste período todo o processo de desenvolvimento tecnológico. “A maneira de habitar mudou, a forma de utilização do mobiliário evoluiu e os produtos acompanharam esta evolução.”

Além de recuperar a indústria, o movimento de inovação pode ser atribuído à preocupação em agradar os novos mercados consumidores, que querem design de qualidade. Em uma volta rápida pelos pavilhões, era possível ouvir os mais diversos idiomas. A organização calcula ao menos 15 mil pessoas, entre arquitetos, designers, lojistas e imprensa.

A reportagem da Viver Bem Casa & Decoração estava lá para selecionar as tendências de maior impacto e conversar com arquitetos e designers de Curitiba. Tudo para apresentar o melhor de Milão e contar como as tendências serão traduzidas para as nossas casas.

Design e inovação

Ao falar do futuro, muitas gigantes do design italiano voltaram-se ao passado, expondo suas peças ícones. Uma forma de recuperar a autoestima e grifar que Milão continuará sendo a “capital do design”. Um dos espaços que melhor retratou isso foi o da Kartell, mostrando uma galeria com lançamentos e peças emblemáticas do seu portfólio de nomes como Patricia Urquiola, Philippe Starck e Roberto Palomba.

A Edra procurou um caminho parecido, mas convidou os brasileiros Irmãos Campana para lançar camas com a mesma linguagem de cadeiras que eles desenharam para marca em coleções anteriores. Fernando Campana conta que, ao receber a encomenda, ele e Humberto passaram a imaginar quais desenhos se adaptariam melhor a uma cama. Os escolhidos foram Corallo, Favela, Cabana, Grinza e Cipria.

A irreverência, marca importante do design, esteve presente em coleções como da Magis, Moroso, Pedrali e Poltrona Frau. Todas trouxeram estofados diferentes e apostaram em móveis leves.

E entre as novidades, uma surpresa brasileira: pela primeira vez uma coleção inteira feita no país foi apresentada em Milão. A responsável é a empresa paulista A Lot Of, ago­­ra rebatizada como A Lot Of Brasil. “Reunimos um time de estrelas para isso, como Fabio Novembre, Alessandro Mendini e Nika Zupanc”, conta o empresário e designer Pedro Paulo Santoro Franco, proprietário da marca que, desde 2004 mantém showroom em São Paulo.

Alessandro Medini, hoje com 81 anos, mostrou-se empolgado com a nova empreitada. “O Brasil tem uma história de muita energia e eu tento inspirar isso com as minhas criações. Talvez a gente combine”, diz.

A direção artística da nova marca ficou a cargo do professor e curador de design italiano Vinni Pasca, o que foi determinante para que a A Lot Of Brasil passasse a conquistar o mundo. “Não é de hoje que se observa o Brasil como um país de grande crescimento econômico e cultural e, assim, uma coleção brasileira pode fazer frente ao mercado internacional”, comenta Pasca. A julgar pela disputa para visitar o espaço no Salão, a ideia deu certo.

Forma e função

Este não é o primeiro ano que Milão coloca os móveis multifuncionais em evidência, mas a tecnologia empregada está cada vez mais precisa, possibilitando novos usos. “Em muitos estandes vimos sofás que viram baús, mesas que são pequenas e ficam imensas e outras tantas possibilidades”, aponta a arquiteta Mônica Becker.

No mobiliário, vê-se a preferência por linhas mais simples. “Nos móveis destinados ao descanso, como sofás e camas, as linhas estão a cada ano mais curvas, porém em mesas e cadeiras notam-se os pés palito e um tamponamento mais fino”, comenta o arquiteto Léo Pletz, afirmando que esse estilo de móveis começa a ser mais usado em projetos em Curitiba.

Por falar em sofás, os apresentados no Salão são grandes, quase sempre modulares, mas pensados para ser o centro do ambiente. Alguns ousam na ergonomia e propõem acentos baixos com encostos muito altos. Há ainda os que têm capas dupla face: de um lado couro e do outro tecido e o acabamento em zíper aparente. Há também sofás com suporte para mesa de trabalho e para pendurar vasos de plantas.

Mas o objeto para sentar preferido dos designers é mesmo a cadeira. As novidades aparecem em desenhos bem geométricos e opções para empilhar.

Móveis como aparadores, estantes e mesas têm na brincadeira com a geometria a grande tendência. “Usar mesas laterais de diferentes formatos e tamanhos, variando as formas, foi uma alternativa apresentada em algumas ambientações das marcas, uma forma de deixar a decoração com composições mais interessantes e versáteis”, comenta a arquiteta Lia Dutra dos Santos.

As estantes, quase sempre vazadas e com toques de cor, entram de vez como elementos centrais na divisória de ambientes. E nada de prateleiras retinhas e simétricas, quanto mais orgânico e surpreendente o desenho, melhor.

Cores e materiais

Cores neutras como base com pinceladas coloridas foi o que mais se viu nos pavilhões do Salão. Nos últimos anos, a aposta vem se repetindo com variação de algumas tonalidades. A cor deste ano foi o azul, que aparece nas mais diversas nuances (chegando até o roxo) e aplicações. “Entre as cores, percebe-se a ligação com a moda. As candy colors, por exemplo, estão em móveis, mas aplicados de forma a não deixá-los infantis”, diz a arquiteta Gislaine Bezerra Tourinho. Mas há espaço também para cores vibrantes.

A opção por texturas mais naturais ficou evidente ao observar o uso da madeira com diversos tipos de acabamentos, inclusive a famosa laca italiana. As pedras naturais perderam um pouco de espaço, sendo mostradas como alternativas para tampos ou detalhes nos móveis em poucas coleções.

Entre os revestimentos, as tendências se cruzam e o que se viu foram paredes e pisos com acabamento cru, em cimento ou tijolo. A pintura, quando aparece, é neutra.

O couro está entre as apostas para os estofados, mas aparece principalmente em móveis, onde é menos usual, como em tampos de mesa ou revestindo portas de armários. “Vimos o couro não somente em sua forma tradicional, mas como pele e croco”, aponta a arquiteta Cristiane Maciel.

Para a arquiteta Sony Luczyszyn, o couro não está entre os materiais preferidos pelos curitibanos nos estofados, mas com as novas padronagens apresentadas em Milão será possível propor projetos diferentes. “As nuances de marrom e azul devem aparecer com força nos projetos de interiores em Curitiba, marcada pelo gosto por projetos com forte ligação com o aconchego, algo muito recorrente em Milão”, comenta.

Entre os materiais há espaço ainda para os produtos recicláveis, com destaque para o papelão e o plástico, que reaproveitados viram móveis e objetos de decoração. Tudo com o apelo sustentável.

Luxo e vanguarda

A “capital do design” é também um importante centro de moda, onde muitas grifes fizeram e fazem história. Boa parte delas comunica-se com o mundo da decoração e lança tendências com a linguagem da moda. Estandes como da Fendi, Kenzo, Versace e Roberto Cavalli têm visita disputada. E, no centro da cidade, as lojas da Armani Casa e da Hermès são vitrines da vanguarda do luxo.

A estampa, os bordados e a riqueza dos detalhes são os principais destaques das grifes que carregam no alto brilho, dourado e animal print.

“Buscamos uma nova dimensão do luxo em uma atmosfera que permeia todos os elementos da vida cotidiana, interpretados de acordo com o estilo Fendi e confirmando o valor real dos produtos”, conta Toan Nguyen, arquiteto e designer francês que assina a “Fendi Casa Contemporary”.

Sem dúvida, o grande diferencial dessas marcas é a exclusividade dos produtos. “São marcas que não seguem exatamente uma tendência, mas têm uma linguagem própria muito forte e, neste ano, mostraram-se com muita força”, opina o arquiteto Léo Pletz.

Completando a vitrine do luxo, estão os móveis assinados pelas grandes indústrias automobilísticas. Os produtos têm design muito particular e há uma aproximação da tecnologia dos automóveis para aplicá-las aos móveis. A Aston Martin e a Mercedes-Benz apresentaram coleções com móveis para todos os ambientes da casa. E uma das grandes surpresas foi o sofá DS, lançado pela Citröen e inspirado na velocidade.

Fonte: Gazeta do Povo (http://www.gazetadopovo.com.br/viverbem/casaedecoracao/conteudo.phtml?id=1366107&tit=O-design-a-casa-torna)

 
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